Pesquisas Qualitativas na eleição de 2016

Autor: Luciano Dias
Área:Política

A legislação que regula as atividades da Fundação Milton Campos estabelece de forma clara sua missão de identificar as necessidades e aspirações da cidadania. Não é uma escolha da Fundação, é uma obrigação legal, que tem se materializado na realização de pesquisas qualitativas por todo o Brasil. A demanda, naturalmente, é sempre maior no período eleitoral e, em 2016, não foi diferente. A Fundação Milton Campos se orgulha de ter realizado o mais amplo esforço de investigação da opinião pública de sua História, com ampla repercussão positiva junto às nossas lideranças.

Este trabalho ajuda nossos candidatos, mas também provê uma oportunidade única para que a equipe da Fundação Milton Campos estude o ambiente político do país e, assim, ofereça a melhor análise do momento político aos nossos parlamentares e dirigentes partidários. Nas próximas linhas, trazemos aos leitores da revista Gestão Progressista um balanço prévio das informações mais relevantes.

Uma primeira impressão geral é o sentimento de abandono do eleitor, expresso em dezenas de frases diferentes. Desde a clássica “depois que foi eleito desapareceu” ou “só aparece quando tem campanha” àquelas induzidas pelos escândalos de corrupção, como “só querem saber de salários” em todas as variações possíveis. É um cenário que se repete de norte a sul, de leste a oeste do Brasil, em cidades grandes, médias ou pequenas.

Trata-se de uma reação que deve ser considerada com cautela. O eleitor brasileiro tem baixo interesse por política, não busca informações nem mesmo sobre sua cidade e nem sempre o prefeito ou o vereador têm um comportamento tão distante.

Ainda assim, o sentimento existe, está lá, nos corações e mentes dos eleitores e a percepção de que a prefeitura só divulga suas ações ou inaugura obras em tempos de campanha é geralmente fatal nas urnas.

Existe aqui, portanto, uma recomendação prática e direta para os eleitos de 2016. É preciso planejar corretamente a política de comunicação. O eleitor precisa ser objeto de iniciativas mais incisivas de comunicação. Também é importante evitar a impressão de que prefeitos e vereadores “só aparecem em tempo de eleição”.

Outra revelação consistente das pesquisas qualitativas realizadas ao longo de 2016, é a preocupação com o emprego. As menções aos problemas na oferta dos serviços de saúde continuam importantes no plano municipal, mas a crise econômica elevou de forma drástica a demanda pela geração de emprego.

Na forma em que sai dos relatórios de pesquisas, essa demanda representa um dilema espinhoso, pois as prefeituras pouco podem fazer em termos macroeconômicos e as Câmaras de Vereadores menos ainda. Não surpreende, portanto, a redução da taxa de reeleição dos prefeitos em 2016. Havia pouco a oferecer.

Ainda assim, é uma situação que sugere um pacote não convencional de políticas públicas. Para prefeitos e vereadores que desejam demonstrar preocupação com a situação dos eleitores, a recomendação mais simples envolve programas de geração de renda, micro crédito, atração de investimentos e a manutenção das contas públicas em bom estado de modo a sustentar um programa de investimentos públicos. Há pouca crença de que o emprego público é solução.

Por fim, também deve ser mencionado o julgamento que os eleitores fazem sobre os benefícios que cada setor da cidade recebe da Prefeitura. É inevitável que grandes investimentos em certas áreas causem um sentimento de abandono em outras. É o caso, geralmente, das obras nos centros das cidades, que melhoram a estética da cidade, mas podem gerar ressentimentos difusos nos setores menos favorecidos por investimentos públicos.

As redes sociais elevam o nível geral de acesso à informação, por canais que não controlados pela mídia tradicional. Por mais que os meios de comunicação em uma cidade sejam simpáticos ao Poder Executivo, eles não têm mais o monopólio da divulgação dos fatos. Prefeito bom, portanto, trabalha por toda a cidade. Um bom vereador olha por todo o seu bairro.

As pesquisas de 2016 confirmam uma verdade antiga: uma eleição se ganha com a maioria dos votos, mas deve-se governar para toda a cidade.