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Brasília, 19 de Maio de 2012 - 14:24
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Lição de governo – O mandato em Minas Gerais

Hoje talvez não seja possível perceber a importância, o significado e a delicadeza das eleições para os governos estaduais em 1947. Pela primeira vez na história do Brasil haveria eleições livres para os governos dos estados e também a possibilidade de que um partido de oposição vencesse. Consumada a eleição, o governador teria a inédita tarefa de compor uma base política e lidar com a máquina administrativa construída sob uma ditadura que durara quinze anos. Era de tal dimensão o desafio político diante dos partidos políticos de Minas Gerais.

Precisamente pela dimensão da tarefa, nenhuma liderança da UDN acreditava ser possível vencer as eleições em Minhas Gerais, cujo processo político era dominado pelo PSDB, partido com amplas conexões com o governo Dutra. Para marcar posição, foi lançado candidato o deputado Milton Campos e como lembra seu biógrafo, Murilo Badaró, "se houvesse qualquer chance da UDN vencer a eleição, Milton Campos não seria o candidato".

Suas chances começam a aumentar graças à divisão interna do PSD. Uma de suas facções rompe com o candidato oficial do partido e une-se a todo o espectro de forças de oposição no apoio a Milton Campos. Um candidato lançado para "cumprir a legislação eleitoral" torna-se um símbolo político, uma resposta do eleitorado de Minas Gerais aos anos do Estado Novo. A direção nacional da UDN chegará mesmo a liberá-lo de qualquer compromisso programático, para que pudesse gerir com tranqüilidade uma coalizão tão vasta de interesses. A campanha udenista de "quixotesca" passou a vencedora.

Uma vez no Palácio da Liberdade, Milton Campos precisava resolver dos dilemas. Primeiro, como governar vindo da oposição. Segundo, como conciliar suas convicções liberais com a necessidade de promover o desenvolvimento do estado de Minas Gerais.

As pressões por retaliações políticas contra os filiados do partido que perdera as eleições foram constantes ao longo de seu governo. Praticamente todos os dias pedidos para a demissão de diretores de escola, delegados de polícia, funcionários públicos ligados ao PSD chegavam ao governador de Minas Gerais. Milton Campos repudiava qualquer atropelo na administração pública por razões partidárias.

Isso não impedia, contudo, que o clima de tensão política entre forças do governo e da oposição aumentasse. A vida política democrática mal começava, as decisões de Milton Campos freqüentemente eram mal compreendidas e os ataques vinha de todos os lados.

Sua lição de moderação em meios aos conflitos tornou-se célebre, registrada em um momento de bom humor. Avisado que antigos aliados agora atacam abertamente seu governo na Assembléia e na imprensa, Campos comentaria: "falar mal do governo é coisa tão boa que dela não podemos privar os nossos amigos". Antecipando dito atribuído ao presidente Itamar Franco, Campos afirmaria que "há certos momentos em que até mesmo eu tenho vontade de criticar esse governo".

O mesmo ânimo conciliador revelaria na condução dos negócios administrativos do estado de Minas Gerais. Sua crença no poder libertador da educação está na raiz dos grandes investimentos em escolas primárias, no ensino agrícola de nível superior, na democratização do ensino médio em Minas Gerais.

Não ficou preso, por fim, ao liberalismo do passado, sabendo incorporar a mensagem do New Deal norte-americano. As quatro liberdades do discurso do presidente Roosevelt ao Congresso dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 1944 estão sempre nos discursos de Milton Campos como governador de Minas Gerais: liberdade de expressão, liberdade de crença, liberdade da fome e liberdade do medo. Com essa visão pragmática mais consistente deu início ao planejamento para a criação da Companhia Energética de Minas Gerais – Cemig. Nesse ponto, não se tratava apenas de criar uma empresa estatal de eletricidade, mas de integrá-la a um programa de desenvolvimento industrial de Minas Gerais.

O Plano de Recuperação Econômica revela a adoção das técnicas e princípios do planejamento econômico pela gestão de Milton Campos, mas, na prática, essa adoção se traduziu mais pela pro- fissionalização da gestão pública do que propriamente pela intervenção direta do Estado na economia. Milton Campos foi um dos políticos pioneiros na indicação de engenheiros e técnicos para cargos de natureza política na administração.

Ele, por sinal, decidiu fazer chegar à administração estadual o esforço de profissionalização em curso no plano federal. Em 1948, ele criou o Departamento de Administração para racionalizar e modernizar a burocracia estadual e combater o empreguismo.

Nenhum governador, solitariamente, em apenas um mandato, muda a cultura política de uma comunidade ou resolve todos os seus problemas econômicos e sociais. A construção de um estado ou de um país é obra de gerações. O governante é julgado pelas sementes que lança, pelas lutas que assume e o eleitor julga sua obra.

A UDN não faria o sucessor de Milton Campos em Minas Gerais, mas é possível notar que sua lição de moderação política e profissionalismo na gestão pública foi ouvida. Em Minas e no Brasil, ontem e hoje ainda.


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