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Parte dos liberais brasileiros pagaram um preço por seu envolvimento com o movimento político-militar de 1964. Foram questionados por comprometerem seus princípios democráticos, forjados na oposição à ditadura de Vargas e mantidos no curso de vários episódios de contestação ao regime de 1946. Milton Campos foi um deles e não porque evitar os fatos. Depois de anos de carreira parlamentar, depois de duas candidaturas a Vice-Presidente, Milton Campos engajou-se de fato nas articulações políticas que conduziriam à deposição do presidente João Goulart.
Não se pode evitar a impressão de que a escolha de Milton Campos tenha derivado da desilusão com o esforço de suas próprias ações em favor de uma saída democrática para a crise. Na condição de senador, Milton Campos havia oferecido em agosto de 1962 um projeto conciliador para a lei de reforma agrária, justamente desenhado para desarmar as tensões no campo. Seu texto seria logo derrubado pela Câmara dos Deputados.
Sobre o processo de radicalização política produzida pelas forças de esquerda, com apoio no Poder Executivo federal, não é preciso estender-se muito. O que não se sabia, à época, é para onde os experimentos de socialismo levariam os países na América Latina e no mundo. Como tantos outros liberais, Milton Campos seguiu, nesse momento, os seus instintos, entendendo a ameaça que representavam para a democracia e para a liberdade o projeto político de parte da esquerda no Brasil.
O episódio é narrado em sua biografia, escrita por Murilo Badaró, Milton Campos, O Pensador Liberal. Fala o governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto:
“Em março de 1964, pedi-lhe, como governador de Minas, que fosse a Belo Horizonte. Acorreu pronta e gentilmente ao meu convite. Conversamos cerca de duas horas. Expus-lhe a situação nacional e dei-lhe a ver a necessidade de unir Minas, pois iríamos tomar a iniciativa, como o fizemos, do movimento revolucionário. Concordou sem hesitação e, apesar de sua vocação jurídica, reconheceu que era preciso agir logo, correndo todos os riscos necessários. Afinal, nosso principal objetivo era cumprir o dever de Minas, cuja tradição nos indicava lutar para preservar as instituições ameaçadas e a tranqüilidade do povo brasileiro. Julgou, porém, de seu dever declarar-me: - ”Advirto-o de que, no caso de fracassos, você ficará incurso em todos os crimes de responsabilidade”. – “Sei disso”, respondi-lhe, “mas estou preparado para tudo”. Depois indaguei: - “Até onde vai sua disposição, a sua solidariedade?”. – “Até onde for preciso”, respondeu tranqüilamente. A seguir, convidado para Secretário, ele que já fora governador e de quem teu tinha sido Secretário, aceitou e disse-me: - “Assim estarei incurso nos mesmos artigos da lei em que você estiver”. (págs 447-448).
Naquela hora difícil, em que conscientemente sabia estar comprometendo princípios de vida em nome da defesa da liberdade, não tomou o caminho da sombra e das vantagens. Pôs-se em situação de risco, na linha de frente, à vista de todos. Desnecessário notar que nada havia de seguro no triunfo daquele movimento político.
Não comprometeu seus princípios para ocupar um ministério ou gozar dos privilégios do poder. Aceitou o ônus de envolver-se com a derrubada do presidente da República assumindo, desde logo, os maiores riscos.
Consumada a instalação do novo regime, Milton Campos assumiu, o Ministério da Justiça, convidado pelo presidente Castelo Branco e confiante na natureza transitória da experiência e na manutenção do calendário eleitoral. As eleições para o governo dos estados em 1965 foram, de fato, mantidas e candidatos de oposição ao regime foram eleitos em Minas Gerais e na Guanabara.
O momento de triunfo de Milton Campos – realizar eleições pouco mais de um ano depois da derrubada de Goulart – é também o momento da confrontação. Os setores militares pressionam o presidente Castello Branco e ele é forçado a editar o Ato Institucional n. 2 em outubro de 1965, que acabou com as eleições diretas e extinguiu os partidos políticos criados pelo regime da Constituição de 1946.
Milton Campos decide então não comprometer seus ideais para apenas ficar no poder. Desassombrado, pede demissão do cargo logo em 1965 e retorna ao Senado Federal, já filiado à Aliança Renovadora Nacional (Arena).
Não lhe interessa mais o poder e Milton Campos recusaria também a nomeação para o Supremo Tribunal Federal. Apenas o voto popular o manteve na vida pública. Em 1966, Milton Campos foi eleito pela segunda vez para o Senado Federal.
Foram dois momentos, dois anos. Em 1964, na planície, pensou que a defesa da liberdade bem valia uma decisão realista e pragmática e assumiu todos os riscos de prisão e processo. Em 1965, no poder, pensou que a defesa da liberdade não valia mais uma decisão realista e pragmática. Pela mesma porta que entrou, saiu do governo.