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Milton Campos entrou na política pelo caminho do Direito, mas seria injustiça considerá-lo apenas mais um bacharel mineiro. A elite política de Minas Gerais sempre foi a mais culta e educada do Brasil desde meados do século XIX e apenas ter um diploma não bastaria para alcançar destaque nesse jogo. O filho do juiz e, mais tarde, desembargador Francisco de Castro Rodrigues Campos teria de construir seu próprio caminho, primeiro como advogado, depois como jornalista e funcionário público.
Na década de 1920, não era possível fazer política ou militar no Direito em Belo Horizonte sem manter contato com a intensa vida literária da cidade. Milton Campos pertenceu aos mesmos círculos de escritores e futuros políticos que produziram Gustavo Capanema, Carlos Drummond de Andrade, Abgar Renault, entre tantos outros. Literatos e intelectuais que tornariam a personalidade mineira um componente central da identidade do Brasil.
A modéstia pessoal, o sentimento de honra temperado por certa ironia, o pessimismo com os homens que não diminui, porém, o calor da amizade, um certo olhar resignado são apenas alguns desses valores. Eles estão nos primeiros poemas de Drummond, na obra cultural de Gustavo Capanema e certamente no estilo político de Milton Campos.
O sentido da política como missão e sacrifício é certamente o primeiro elemento do credo do intelectual então prestes a entrar na política. A vida partidária nos últimos anos da República Velha, quando o sistema oligárquico se desfazia, podia ser turbulenta e incerta, marcada por conflitos agudos entre chefes políticos e pelo uso recorrente da violência e da fraude eleitoral. Nesses tempos, a qualquer momento, o preço da consciência poderia ser o abandono da carreira política. Um sentimento que já surge estampado no artigo de 8 de maio de 1925, publicado em O Jornal, comentando sobre a vida de João Pinheiro:
“... Parece que morreu com João Pinheiro aquela capacidade de renúncia, que leva o político a nobres retraimentos voluntários, quando a dignidade pessoal, magoada pela perfídia, aconselha um afastamento higiênico da vida pública (...) Não se agarrava ele aos cargos eletivos como ostra ao rochedo, atitude hoje vulgar e que faz de uma cadeira de deputado, nesta pitoresca democracia, o mais vitalício e o mais inamovível dos empregos...” (Murilo Badaró. Milton Campos – O Pensador Liberal. Belo Horizonte, Armazém de Idéias, 2000, pág 54).
A ética do desprendimento, contudo, nunca foi usada para a omissão. Sustentou, isso sim, em vários momentos, a decisão de seguir caminhos fadados ao insucesso eleitoral, mas politicamente necessários. Como nas duas vezes em que se candidatou a Vice-Presidente da República. Na primeira, em 1955, condenado a ser derrotado por Juscelino Kubitschek. Na segunda, em 1960, a ser traído pelo próprio companheiro de chapa, Jânio Quadros.
Tornou-se sua marca pessoal responder a esses momentos difíceis com uma fina ironia e com frases bem humoradas, hoje incorporadas às tradições políticas do Brasil.
Foi consagrado como candidato ao governo de Minas pela UDN em 1947 porque as demais lideranças de seu partido consideravam certa sua derrota. Interrogado pelas mesmas quando seu favoritismo começava a ser notado, comentou sobre os rumos da campanha:
“Corremos o sério risco de ganhar...”
No governo de Minas Gerais, seu espírito de tolerância na condução da relação com aliados e opositores produziria outros momentos clássicos da política nacional.
Em resposta a uma greve de ferroviários, vários auxiliares recomendavam o envio de soldados da polícia estadual. O governador Milton Campos calmamente lembrou de uma alternativa:
“Não seria melhor mandar o trem pagador..?”
Nenhuma de suas frases se tornaria tão célebre quanto aquela resposta à informação de que um antigo aliado, em uma certa cidade mineira, passara a fazer ataques a seu governo. Pedia-se uma reação. Milton Campos lembrou:
“...Falar mal do governo é algo tão agradável, que este privilégio não deve caber apenas aos homens da oposição. Às vezes, até eu mesmo tenho vontade de criticar esse governo..”
Os tempos eram de guerra de partidos, como os de hoje. As trocas de acusações freqüentemente encobriam disputas por cargos e vinganças municipais. Outros poderiam desistir, mas Milton Campos ainda arriscava uma dose de bom humor e tolerância para desarmar os ânimos e seguir adiante.
O que jamais escapou de sua descrença foi o radicalismo que condenou a ordem democrática criada em 1946. Sempre que era possível, levantava sua voz para sublinhar o erro. Em 1966, momento delicado, lembrava em aula magna na Universidade Federal de Minas Gerais:
“É que a radicalização, inimiga mortal da tolerância, não costuma estar nas idéias em si mesmas, senão no modo como se apresentam e no processo pelo qual procuram prevalecer. As idéias, em geral, nascem desprevenidas e desarmadas, como é próprio dos frutos do espírito. Mas a paixão as envolve, o amor-próprio dos homens as desnatura, a emulação as faz agressivas e, ao cabo, a própria idéia de paz torna-se um pretexto de guerra. E um radicalismo nunca vem só. Provoca o radicalismo contrário... “ (págs459-460)
Palavras proféticas naquele momento da vida brasileira.
Como em um poema de Drummond, a eventual exaltação das paixões deve ser resolvida pelo esclarecimento do Homem, mas esse processo começa por um discreto sorriso, causado por uma ironia mineira.
O tema da resignação e do ceticismo parece deslocado na política de nossos dias, mas sob ele está um valor mais alto: a tolerância política.