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Brasília, 19 de Maio de 2012 - 14:25
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Milton Campos – Visões da política e do governo

Trechos selecionados de - Compromisso Democrático. Belo Horizonte. Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais, 1951.

"O governo que ora se inicia procurará sem modesto, como convém à República, e austero, como é do gosto dos mineiros. A investidura não será para nós uma parada de repouso. A vitória eleitoral não foi o fim de um movimento, mas o início de outra fase da luta democrática, mais dura e mais áspera". (Discurso de posse como governador de Minas Gerais, 19 de março de 1947).

"O comando de um só homem ou de um só grupo de homens não é apenas uma usurpação política: é também o método ineficaz e ilusório de captar maliciosamente a confiança do povo para traí-la em seguida. À sua sombra prosperam os exploradores da angústia popular e os aproveitadores do monopólio político. Tudo faremos no governo pela criação de um clima de clareza nos métodos administrativos e na ação pública, evitando o sigilo propício aos desvios de conduta que comprometem irremediavelmente a vida democrática..." (Discurso ao povo de Belo Horizonte, 19 de março de 1947).

"... As idéias laboristas dominaram os espíritos e o trabalhismo deixou de ser o movimento de uma classe para transformar-se em orientação de todas as atividades políticas democráticas. Vencida, como está sendo a fase de organização da liberdade política, o conteúdo do ideal democrático passará a ser, como vem sendo, a organização da igualdade social... " (Discurso do dia 1 de maio de 1947).

"... A idéia de democracia, tantas vezes deformada nos espíritos e outras tantas traída na sua prática, está associada à limitação do poder, e é dessa necessidade fundamental das nações civilizadas que nascem as Constituições. Só o povo é soberano e sua soberania se exerce através das urnas, que por isso mesmo precisam ser livres... " (Discurso aos deputados constituintes mineiros, 14 de julho de 1947)

"... Os escritores do Brasil têm grande parte na conquista dessas garantias e maior participação lhes está reservada, para o futuro, no aprimoramento delas. Compete-lhes, sobretudo, um grande trabalho, que deles depende mais do que de qualquer outra influência: o de organizar e esclarecer a opinião pública, para que ela seja em verdade o fator máximo de elaboração das decisões democráticas. No verdadeiro regime da liberdade, a opinião pública é a fonte dos poderes e das deliberações, porque nela se reflete e se condensa o sentimento difuso do povo..." (Discurso no II Congresso Brasileiro de Escritores, 13 de outubro de 1947).

"... Já tive o ensejo de sugerir um estudo sobre a dificuldade de expressão como causa dos conflitos humanos. Assim, entre os indivíduos como entre os povos, a luta começa quando neles termina a capacidade de se exprimir. Enquanto a palavra socorre o homem e lhe permite significar com propriedade suas idéias e emoções, há compreensão mesmo no desacordo: é a controvérsia, cara ao espírito. Quando a palavra foge, os sentimentos se traduzem primariamente pelo clamor ou pelo gesto desgovernado e bruto: é a guerra ou a luta, de onde o espírito se ausenta e onde os impulsos instintivos superam todas as vigilâncias e censuras da civilização..." (Discurso no II Congresso Brasileiro de Escritores, 13 de outubro de 1947).

"... Daí poder-se dizer que os dois pontos de atração da democracia moderna, para os quais se dirigem todos os nossos esforços, são a liberdade e a igualdade. Nenhuma doutrina tem o privilégio dessas idéias. Podemos dizer que elas constituem uma indeclinável inspiração da fé cristã, que é o ambiente espiritual em se formam o coração e o espírito dos brasileiros. Procuraremos atingir o equilíbrio entre esses dois ideais e fujamos do risco de atingir um com esquecimento do outro. Só a conjugação de ambos, em um sistema de justiça, é que poderá eliminar a opressão entre os homens. Sem a liberdade, cairemos na opressão política. Sem a igualdade, consolidaremos a opressão econômica. Num e noutro caso estará esquecida a pessoa humana e a democracia falhará na sua missão..." (Discurso a um congresso de trabalhadores, 15 de dezembro de 1947)

"... Podeis estar certos de que Minas tem como uma de suas características o culto do passado e o apego às tradições. Mas, com essa certeza, não acrediteis nunca que esse apego e esse culto sejam inibitórios, induzindo à contemplação, à imobilidade e à inércia. Ao contrário, o passado entre nós vale, sobretudo, como um estímulo e as tradições são um fio invisível, mas atuante de orientação para o futuro (...) É caminhando para o futuro que somos fiéis ao passado, como, na imagem de Jaurès, é correndo para o mar que o rio se conserva fiel à sua fonte..." ( Discurso ao Congresso Nacional de Estudantes, 17 de julho de 1948)

"Em verdade o meio termo é uma posição de coragem, daquela tranqüila e determinada coragem que resulta da convicção sincera e refletida. O ponto extremo é o mais cômodo, porque oferece uma definição precisa e dispensa as constantes revisões que a realidade suscita. É um compromisso teórico e sistemático, cuja firmeza está em contraste com as vertiginosas mutações da vida real. O ponto intermédio é mais propriamente uma zona fronteiriça, de contornos imprecisos e lindes esquivas, mas onde mais adequadamente se demarca a área da realidade. É aí que se devem colocar aqueles que, não sendo criadores de doutrinas ou aplicadores de sistemas, têm, entretanto, a incumbência de lidar com as situações objetivas que se lhes deparam, ordenando a solução dos problemas com espírito prático e finalidade utilitária... " (Discurso na II Conferência Nacional das Classes Produtoras, 24 de julho de 1949)

"... Prometi que faria um governo inspirado nos sentimentos de modéstia e de austeridade, significando com isto que todos nós nos anularíamos pessoalmente, para que pudesse resultar de nosso esforço uma obra comum, silenciosa, e até mesmo anônima, mas cujos efeitos se afirmassem em benefício de nosso povo..." (Discurso de improviso, falando aos Secretários de Estado, março de 1950)

"... Não limitei minhas preocupações aos feitos de ordem material, ao alcance de todos e a todo tempo praticáveis. Mas sempre considerei que uma coisa não se pode perder: é o esforço pelo enobrecimento do indivíduo; é o esforço em prol da organização do Estado; é o esforço por manter ao nível do passado as tradições que nos foram legadas e que nos cumpre aprimorar, para podermos passa-las às gerações futuras. Esse é o trabalho primordial, talvez obscuro, porém atuante, uma vez que ele vai infundir no espírito dos cidadãos aquele princípio de solidariedade sem o qual nenhuma organização pode subsistir...." (Discurso no Comando Geral da Polícia Militar, 19 de novembro de 1950).

"... É preciso que o exercício do poder não deforme a personalidade nem altere a orientação das inspirações formadoras. Por mais eminente ou marcante a posição a que o cidadão seja levado, não pode ele deixar de carregar no seu espírito um núcleo de idéias fundamentais para firmeza de sua direção, evitando a inconstância em face da versatilidade das circunstâncias. Que estas influam para tornar atuais e adequadas as soluções, mas não encontrem a disponibilidade flutuante e vaga, que surpreende e desconserta pelos imprevistos e pelos improvisos a que necessariamente conduz. A fidelidade aos princípios é o único meio de evitar que o homem público adote passivamente as idéias de sua posição em vez de, como lhe compete, tomar sempre a posição de suas idéias". (Discurso por ocasião da passagem do ano, janeiro de 1950).


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